7/7/06
O DIA QUE NUNCA EXISTIU.
Felipe tomou coragem e disse - Vou mudar de vida! - disse também que ia dar uma volta e meia no mundo. E foi com tudo.
No meio do caminho tinha uma pedra, ela passou por cima e tamanho foi a força, que caiu bicicleta pra um lado e ele para outro. Não deu outra: traumatismo craniano e braço quebrado.
Pra sorte dele meu inimigo, o Bartolomeu, estava por perto e lembrou de mim na hora. Demorou, mas acabaram os dois batendo de ambulância no meu trabalho.
Trabalho no hospital Érick Bonanohensen, sou enfermeiro mas nunca entendi o por quê desse nome para o hospital. Até que Dona Cissinha ,que trabalha na copa, contou tudo.
Bonanohensen nem doutor foi, mas chegou aqui, salvou deus e o mundo e acabou morrendo em um acidente de trânsito. Como o pai dele era amigo de um vereador, homenagearam o hospital com seu nome e o Dr. foi de brinde. Mas olhando bem, Érick Bonanohensen soa bacana. Já pensou se fosse Josefino Miranda? Que feio. Deixa o Bonano mesmo.
Quando Felipe chegou todo arrebentado no hospital, só estava eu e o doutor Thiago em serviço ( Esse Thiago é doutor mesmo, formado na Bolívia e tudo). Providenciei a cama para o enfermo e enquanto isso, Bartolomeu explicava todo o fato. Quando Bartô saiu da sala eu saquei tudo.
Era uma terça-feira de copa, com Brasil x Estônia. Bartôlomeu saiu correndo pra assistir a sós o jogo com a Renata. É muito idiota um cara desse, nunca gostei de Renata, mas sim da Sabrina, sua irmã. Era mais gordinha, torcia pro Flamengo e bem mais simpática. Ele também gostava dela, mas pra azar geral, Sabrina curtia a mesma que a gente. Então pra Bartô, só o fato de dizer - Mas tô com a irmã - já era um amuleto único. Que idiota!
O jogo começou, estouravam fogos de artifício por tudo que é canto. Olhei para o lado - Ué, cadê o doutor Thiago? - Sumiu.
Ví meu dia completo: jogo da seleção, a cidade inteira assistindo, Bartolomeu vendo o jogo com a Renata, Sabrina sabe lá deus aonde, o doutor Thiago em algum botequim e eu no hospital cuidando de Felipe que acompanhava um braço quebrado e um traumatismo craniano.
Sentei na cadeira e respirei. Inspirei e respirei, igualzinho aprendi na tevê. Inquieto, levantei e fui ver a expressão do paciente e disse: Calma cara, vai dar tudo certo. Se ainda não deu certo é por que não terminou.
Quando dei por mim pelo o que tinha feito, calei imediatamente. De onde tirei isso? Pior; O que é isso? - era tudo o que minha cabeça se perguntava.
Antes que ele duvidade de minha macharesa, calei minha boca. Tava na cara que iria esquecer tudo. Bem, devia.
Deu foi merda. O cara teve um ataque momentâneo, nem deu tempo deu saber se eu era assistente de enfermagem ou enfermeiro. Pra todo efeito eu era médico, tão médico como fora o "doutor" Érick Bonanohensen.
Abri as janelas pra circular um vento, taquei umas compressas na testa do paciente pra aliviar a alta temperatura e taquei também, desculpa. Injetei morfina na veia dele até que ficasse bastante calmo.
Bem, o Brasil venceu a partida por 2 a 1. A copa ele não levou não. Felipe saiu do hospital três meses depois, tinindo igual novo. Eu sair bem antes, na primeira sindicância que perceberam a falta de morfina no estoque, caçaram meu emprego. Como tudo tem seu lado bom, Renata deu um churros pra Bartolomeu, foi tudo que ele comeu. Ela saiu dizendo comprar cerveja e o coitado até hoje espera a gelada. O doutor Thiago, quase larga a medicina pela engenharia, mas não, passou num concurso e virou funcionário público lá pelas bandas de Alagoas, o cara deu nem tchau.
A cidade que nem gosta de fuxico, ganhou um do ano. Renata e Sabrina, se juntaram. O fato casou alarde geral, incesto e lebianismo juntos na pequena Pequenópolis. Saiu nos jornais da cidade vizinhas, até a rádio comentou o babado, a mesma rádio que estagiei, mas não demorei muito por me candidatei a vereador e detalhe, fui eleito. Ainda que virando vereador, ninguém me chama de doutor. Tudo bem, hospital não tenho, mas batizaram um ginásio com meu nome.
Álisson Oliveira
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